Bibliodiversidade: Entrevista com Cristina Warth e Haroldo Ceravolo

Quem ouve falar em bibliodiversidade pode pensar logo: mais sobre o novo projeto florestal? Chega! Mas não: a bibliodiversidade fala de um outro ser: o livro. Mais precisamente do mercado editorial, que querendo os leitores e autores, ou não, é parte essencial da Literatura mundial. Quando falamos em incentivar a leitura, distribuição de livros de qualidade, acesso ao livro; falamos do trabalho das editoras. E a Bibliodiversidade é uma proposta da Libre – Liga Brasileira de Editoras, uma rede de editora independentes, que trabalham em conjunto pela sobrevivência no mundo editorial. No site da Libre, podemos encontrar o programa elaborado, que foi entregue para representantes do governo, da Bibliodiversidade. Clique aqui.

Para conhecermos um pouco mais, conversamos com Cristina Warth, da Pallas Editora, e Haroldo Ceravolo, da Alameda Casa Editorial, que responderam em conjunto, como presidente e diretor da Libre:

Aletria: Como avaliam os primeiros "100 dias" do Ministério da Cultura em relação à literatura?

Libre: A ministra Ana de Hollanda não fez uma opção pela continuidade, mas pela rediscussão de um dos projetos mais importantes da gestão anterior, a reformulação da Lei de Direitos Autorais. É uma lei que diz respeito não apenas ao livro, mas a toda produção cultural. Além disso, o que é comum em início do governo, embora não seja desejável, houve cortes em muitas áreas, inclusive na pasta da Cultura. Ou seja, tivemos a paralisação de muitos projetos em andamento. O governo mostrou, apesar dessas dificuldades, abertura para receber os principais atores do mercado livreiro, inclusive a Libre, e, além de uma reunião com a ministra, pudemos discutir mais de uma vez com a direção da Fundação Biblioteca Nacional políticas para o livro e para as editoras independentes em particular. Ainda é cedo para uma avaliação mais concreta, mas temos sentido que há o desejo de interlocução não apenas com os grandes players do mercado, o que é positivo.

Aletria: A Bibliodiversidade é capaz de se adequar a um mercado mundial? Como?

Libre: A bibliodiversidade é um conceito, uma ideia que, na nossa opinião, deve moldar o mercado de livros, no Brasil e no mundo. O mercado do livro é não apenas uma cadeia produtiva, é uma cadeia de conhecimento. Para que ele tenha sentido no mundo econômico, é fundamental que ele preserve a característica de ajudar a difundir e, mais importante ainda, criar conhecimento. Não devemos tratar o livro como um fetiche, mas como algo útil e necessário para a nossa sociedade. Por isso, acreditamos, a sociedade e os governos interessados em criar um mundo com mais possibilidades, desafios e capacidade para conhecer e debater democraticamente devem apostar num mercado livreiro que promova a bibliodiversidade. A bibliodiversidade está relacionada à propria ideia de diversidade cultural – na verdade, é a garantia de que o mercado do livro ajude a construir uma sociedade que respeite e promova a democracia e a diversidade de cultura, política e de gênero.

Aletria: A defesa de cotas para pequenas editoras pode acarretar em um problema que é o controle da qualidade dos livros adquiridos pelo governo. Acreditam que o sistema atual de avaliação de obras (como ocorre com o PNLL) é capaz de garantir essa qualidade? Quais as sugestões para definirmos o que é uma "pequena editora"?

Libre: O sistema de cotas, mal usado, pode ser mesmo um problema. Mas pensado em meio a outras políticas, ele tem exatamente o sentido inverso, o de permitir que as bibliotecas das escolas e universidades públicas e os livros que os estudantes levem para casa sejam muito mais úteis e interessantes. É um erro acreditar que as pequenas e médias editoras têm uma produção de baixa qualidade. Basta olhar os catálogos das editoras associadas à Libre e as universitárias, por exemplo. Você verá que boa parte do que de melhor se publicou no país nos últimos anos, em ficção e não ficção, mas também em poesia e nos infantis, foi feito pelos pequenos editores. Os autores badalados pela mídia quando chegam às grandes editores, na maior parte das vezes, publicou outros livros por uma empresa pequena, que investiu conhecimento e energia num novo talento – seja ele um escritor de ficção, um ilustrador ou um acadêmico.

Vou dar um contra-exemplo, um equívoco como política de governo: o Estado de São Paulo tem um programa, chamado Apoio ao Saber, que distribui milhares de livros iguais (alguns muito bons) para os estudantes da rede, de acordo com o ano letivo. É uma tristeza: os alunos da mesma classe recebem os mesmos livros, que nem sempre os professores adotam. Não podem nem trocar entre eles, porque o livro que um tem, todos têm. Na última edição, um pequeno grupo de grandes editoras ficou com a maior parte das vendas. É um prejuízo para a cadeia do livro (uma venda de 400 mil exemplares para uma só editora, e nenhum para centena de outras, provoca um desequilíbrio econômico) e para a cadeia do conhecimento, porque pasteuriza a ideia do que é cultura e literatura. Esse tipo de situação aponta para a necessidade de formulação de uma política de Estado, que garanta a participação do maior número possivel de empresas capacitadas, com a edição de editais amplamente divulgados e formulados de forma a garantirem a diversidade da produção nacional.

Por fim, como definir uma editora pequena ou média? Há algumas maneiras, que precisam ser discutidas. Mas é possível pensar em termos econômicos (faturamento, por exemplo), de tamanho de catálogo, de números de títulos lançados por ano e por número de exemplares produzidos – ou uma combinação deles. O governo é capaz de definir o que é uma pequena ou média empresa, a partir do faturamento. Uma cesta de informações já disponíveis para o governo (via Receita e Biblioteca Nacional, por exemplo) pode muito bem definir o que é uma pequena ou média editora e estabelecer critérios de qualidade. Estamos prontos para discutir essas questões.

Aletria: Muitos dos programas de incentivos são baseados em Bienais e outras feiras. Mas a avaliação destas feiras é geralmente positiva em termos de venda. Sem a discussão sobre literatura (do ponto de vista da editora ou autor) e as bienais viram mais "queimas de estoques", o que não é positivo para pequenas editoras que trabalham com pequenos estoques com menor margem de variação de preço, além do preço do estande geralmente muito alto. Como vêem a política de Feiras e o que sugerem que deve ser feito para beneficiar as pequenas/médias editoras?

Libre: As bienais são eventos, sobretudo econômicos, não são eventos que favorecem a bibliodiversidade nem a discussão literária – que, devido ao trabalho de escritores e estudiosos, felizmente já construiu um poderoso circuito alternativo de encontros e congressos. A Libre surge, inclusive, porque suas editoras não se sentiam confortáveis em participar dessas superfeiras.

O ideal é que a política do livro seja feita no dia-a-dia e em encontros menores e mais produtivos – como, acreditamos, são as Primaveras dos Livros e a Feira de Porto Alegre, promovida pela Câmara Riograndense do Livro, e favoreça cada vez mais um instrumento ainda um tanto negligenciado no país, a biblioteca pública de bairro e da escola. Achamos também que as bibliotecas de escolas e universidades privadas têm de ser abertas para o público em geral, como parte da função social. Elas atuam numa área que deveria ser dominantemente pública e recebem muitos incentivos fiscais e de financiamento público, então nada mais justo que se abram para toda a sociedade.

Aletria: O nosso parque gráfico é eficiente e permite uma diversidade editorial competitiva? É algo que o Governo poderia atuar?

Libre: O parque gráfico instalado no país já é bastante competitivo, mas ainda assim vemos que muitos editores buscam imprimir seus livros no exterior, sobretudo na China e na Índia. Precisamos pensar muito sobre isso. Nesses paises o trabalhador está sujeito a condições de extrema exploração, o que faz com que se sujeitem a receber muito menos pelo trabalho realizado. Além disso, estamos contribuindo para o esvaziamento do setor gráfico. Mas não é apenas esse o problema. No Brasil o custo do papel é alto e está nas mãos de poucos fornecedores. O custo do transporte rodoviário também encarece o produto final.

Aletria: Existem pequenos entraves burocráticos na cadeia do livro, como o ISBN, centralizado e utilizando um sistema ultrapassado de coleta, que não está de forma alguma pronto para o mundo do livro digital. Que outros dificuldade as pequenas editoras enfrentam e como poderiam ser solucionadas?

Libre: Não acho que o sistema de coleta de informações para o fornecimento do ISBN seja um grande entrave. Claro que pode ser modernizado, mas entrave mesmo é a concentração de mercado, a política ainda tímida de formação de bibliotecas públicas abertas para todas as comunidades, que funcionem como centros de difusão da leitura com profissionais capacitados e bem formados, os custos de transporte, a ameaça à sobrevivência e implementação de pequenas livrarias independentes e, o mais importante, a consolidação de um público leitor, que aprecie, valorize e deseje possuir e usar os livros, por prazer, lazer, necessidade. Nosso maior entrave é o tamanho do público e o acesso a ele.

Aletria: Muitas políticas de incentivo a leitura apóiam o acesso ao livro, com distribuição massiva,  apesar de sabermos que muitos livros de baixo custo ou gratuitos não são efetivamente lidos. O que fazer depois de ter o livro é importante. Quais sugestões para as pequenas editoras nesta área? E para o governo?

Libre: Vamos ser um pouco heterodoxos nessa resposta. O livro, muitas vezes, é tratado com um objeto sagrado, o que não é. Quantas pessoas compram sapatos ou roupas que acabam não usando? E nos casamentos, quantos presentes as pessoas recebem que acabam não servindo para nada? Numa biblioteca pessoal, comprado com dinheiro próprio ou distribuída pelo setor público, é de se esperar que uma parte acabe não sendo utilizada. Precisamos trabalhar para que as escolhas dos livros sejam interessantes pelos leitores, mas é injusto esperar 100% de aproveitamento de leitura dos livros, quando aceitamos o descarte de tantas outras mercadorias. Para nós, é fundamental criar uma cultura do livro. Só lê muito – em casa, na escola, no trabalho, nas bibliotecas públicas – quem tem livro em casa. É preciso criar a cultura de que toda casa precisa ter uma biblioteca, todo consultório dentário tem de ter livros para os pacientes lerem algo enquanto esperam a sua vez, que o livro esteja nas estações de trem, metrô, pontos de ônibus. Programas nesse sentido têm sido adotados aos poucos em todo o país – o governo federal poderia fazê-los andar mais depressa e criar soluções que aproveitem e façam difundir essas experiências.

( Fonte: http://www.aletria.com.br )

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