Que tipo de fascínio o corpo de uma página em branco exerce sobre o olho do
artista? Drummond, o poeta itabirano, de maneira inversa, chamou esse embate do
artista contra o branco da página como uma peleja 'com palavras'. Alerta-nos o
poeta que "lutar com palavras / é a luta mais vã", "lutar com palavras / parece
sem fruto". Porém, o artista revela-nos, metaforicamente, a arena onde o
combate se trava, espécie de metáfora da página intata: "descampado".
A expressão acima revela a solidão do artista diante do ermo que a página
impõe, as respostas que a existência solicita, o desejo de dar sentido e forma
ao imponderável através da palavra. Da página em branco, portanto, parece
emanar um mistério sensual que fustiga a curiosidade e impele o artista ao
deciframento.
Na assepsia de sua pureza, no caos do non sense que o branco da página inspira
é que se coloca o artista. É nesse "descampado" que o verbo explode e a arte se
faz, sempre sob a singularidade de cada artista, com um recorte do tempo que
traça o perfil dessa metamorfose perene da vida, que forma o longo tecido da
humanidade, suas virtudes e falências.
É, portanto, sob os escombros da história do homem convertida em palavras que a
arte literária encontra seu significado e magnitude, nos mais variados gêneros
de sua expressão. E o artista, observador sensível das nuances desse
calidoscópio, é seu intérprete mais legítimo, pois dá corpo a todo o pulsar da
experiência humana, convertendo-a no nobre tecido de toda a existência.
O enigma da vida, remontado sob jogos de espelhos sobrepostos, vem enfim
repousar na nulidade da página em branco e revelar-se pela palavra no
imaginário do artista. A vida, portanto, metamorfoseia-se em linguagem.
É essa a vocação da Editora Altana, dar forma ao imaginário da vida tornado
linguagem.
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