29/6/2009
Fundo Pró-Leitura -- Governo dá 45 dias para estudo de impacto
Governo dá 45 dias para estudo
de impacto da contribuição de 1%Entidades do setor lutam para adiar a criação do Fundo; mas o governo federal quer votar o projeto no segundo semestre.As
entidades do setor do livro presentes à audiência pública da semana
passada (dia 16), em Brasília, defenderam o adiamento do Fundo Setorial
Pró-Leitura, e obtiveram, do governo, prazo de 45 dias para concluir um
estudo sobre seu impacto na cadeia produtiva do livro. O trabalho deve
ser encomendado ao economista Fábio de Sá Earp, da Universidade Federal
do Rio de Janeiro, e apresentado pelo IPL-Instituto Pró-Livro. O IPL
foi fundado em 2006 pela Abrelivros, pelo Snel-Sindicato Nacional dos
Editores de Livros, e pela CBL-Câmara Brasileira do Livro. É mantido
com contribuições de editoras, que pretendiam torná-lo o gestor dos
recursos destinados às ações de fomento à leitura, tendo reunido, até
hoje, cerca de R$ 10 milhões.
Essa possibilidade, contudo, não
deve ser aceita pelo governo federal, segundo Gláucio Pereira,
vice-presidente da Libre-Liga Brasileira de Editoras, que esteve na
audiência pública promovida pela Frente Parlamentar Mista da Leitura,
na Cârmara dos Deputados, para discutir a minuta do projeto de lei para
criação do Fundo Setorial Pró-Leitura
(veja a íntegra).
O Fundo será formado com a arrecadação de uma Contribuição de
Intervenção no Domínio Econômico (Cide), de 1% sobre o faturamento
bruto das empresas que, em 2004, foram desoneradas do recolhimento do
PIS/Pasep e Cofins. Sua administração deve envolver representantes da
sociedade civil e do próprio governo.
Para Gláucio Pereira, foi
importante a constatação, por parte do conjunto das entidades, da crise
que atinge o setor, já há dez anos. Além de ANL--Associação Nacional de
Livrarias, CBL, Snel, Abrelivros também tentaram postergar a cobrança
da Cide. "Pela primeira vez, elas reconheceram publicamente, com
números, que temos menos leitores no país e que o faturamento vem
caindo. Toda a cadeia admitir isso é fundamental para repensar o modelo
e as políticas públicas do livro; para deixar claro que não é um
problema que atinge só o pequeno, mas os grandes também", diz ele.
As
entidades estimam um aumento no preço final dos livros de até 2%, o
dobro da alíquota da Cide, devido à incidência de imposto sobre imposto
(1% sobre a receita do editor; mais 1% sobre a do distribuidor, na
venda do mesmo livro já taxado no editor; e mais 1% sobre o faturamento
do livreiro). E, de acordo com a presidente do Snel e do IPL, Sônia
Machado Jardim, as vendas ainda não recuperaram os patamares de 1999 e
estão sob pressão da crise mundial.
Ela apresentou pesquisa
Fipe/Snel/CBL, que indica queda no faturamento das 300 maiores editoras
do Brasil, descontada a inflação, de R$ 1,81 bilhão, em 1999, para R$
1,62 bilhão (muito menos do que os R$ 3,01 bilhões de valor nominal),
em 2007. Também em cálculo deflacionado, o preço médio do livro
praticado por essas editoras para as livrarias teria passado de R$
7,725 para R$ 6,335.
Reação indignadaOs
representantes dos ministérios da Cultura, da Educação e a Casa Civil,
no entanto, mostraram-se "indignados", na expressão de Gláucio, com a
disposição das empresas desoneradas em 2004 (em 9,65%), de quebrarem o
acordo com relação à contribuição de 1%. O secretário-executivo de
Políticas Culturais do MinC, Alfredo Manevy, classificou a pesquisa de
"malabarismo numérico, considerou insuficiente a redução no preço dos
livros e lamentou o fato de o setor já ter deixado de recolher R$ 100
milhões para o estímulo à leitura, sobre faturamento de R$ 10 bilhões
entre 2004 e 2007. Destacou, ainda, aumento de R$ 150 milhões nos
investimentos na área feitos pelo governo.
Na avaliação de
Gláucio, as compras do Estado, no entanto, não compensaram a
desaceleração. "Sem elas, simplesmente, o cenário seria pior",
constata. A pesquisa Fipe/Snel/CBL aponta um encolhimento de receita,
nesse caso (sem contar as compras públicas), de R$ 1,57 bilhão para R$
1,23 bilhão, no mesmo período. "Mesmo assim, ao que tudo indica, o
governo não abrirá mão do fundo, cabendo, então, trabalharmos na
definição de seu percentual, forma de cálculo, etc.", analisa o
vice-presidente da Libre.
As empresas enquadradas no Simples não
vão recolher a Cide. Elas não foram desoneradas dos impostos, em 2004,
e não precisam arcar com contrapartida. Gláucio calcula que mais da
metade do setor esteja nessa situação.
O deputado federal Miro
Teixeira (PDT/RJ), de acordo com Gláucio Pereira, "lembrou que a
política do setor não poderá se basear tão somente na criação de um
fundo". E pediu cópia da minuta do projeto de lei de fomento ao livro e
à leitura
[que propõe o preço único
- ou um limite nacional para os descontos negociados sobre os preços
dos livros definidos pelos editores], que também interessou à deputada Maria do Rosário (PT/RS), presidente da Comissão de Educação.
O
deputado Marcelo Almeida (PMDB-PR), presidente da Frente Parlamentar da
Leitura, espera que o projeto do Fundo seja votado no segundo semestre.
CONSULTA
Maioria dos associados votam a favor do Fundo Pró-Leitura, mas quer contribuição sobre o lucro, e não sobre a receita bruta
A consulta feita pela Libre, sobre a criação do Fundo Setorial
Pró-Leitura, recebeu 18 questionários, ou 18,5% sobre um total de 97
associados. Entre as editoras que opinaram, a maioria (dez, ou 56%) é a
favor da contribuição de 1% para o Fundo, e oito (ou 44%) são contra.
Sua incidência, contudo, deve ser feita sobre o lucro para 61%, e não
sobre o faturamento, preferência de apenas 28%.
Confira os resultados obtidos:
a. Sua empresa reduziu os preços de obras bibliográficas comercializados após 2004?
(5) Sim -- 28%
(13) Não - 72%
b. Sua empresa contribui com o Fundo nos moldes atuais (formado pela CBL, SNEL e Abrelivros em favor do IPL)?
( 1) Sim - 6%
(17) Não - 94%
c. Sua empresa contribui por qual entidade? SNEL, CBL ou Abrelivros?
(10) SNEL - 55,5%
(5) CBL -- 28%
( ) Abrelivros
(1) Libre - 6%
d. Você concorda com a criação de Fundo ou contribuição de 1% ? Sim ou Não.
(10 ) Sim -- 56%
(8) Não -- 44%
e. Em concordando com a contribuição de 1%, você considera que ela deve ser: voluntária ou compulsória?
(9) Voluntária -- 50%
(5) Compulsória - 28%
f. A contribuição de 1%, em sua opinião, deve ser sobre o faturamento ou sobre o lucro?
(5) Faturamento -- 28%
(11) Lucro -- 61%
g. A seu modo de ver, a arrecadação deve ser feita e gerida por:
(6) PNLL - 33%
(4) IPL - 22%
(5) Participativa (PNLL, IPL, Outros?) - 28%
h. A gestão do Fundo deve ser feita por:
(5) PNLL - 28%
(4 ) IPL - 22%
(6) Participativa (PNLL, IPL, Outros?) -- 33%
i.
No seu entender, não havendo o consenso sobre a forma atual de criação
do fundo, com arrecadação compulsória, o retorno à cobrança de impostos
(PIS/Cofins) implicará em:
(7) Grande impacto negativo e aumento de custos e preços do setor - 39%
(8) Nada ocorrerá a favor do setor, beneficiando somente a arrecadação do Governo) - 44%
(1) Outros. (Especificar)_-- 6%