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LIBRE no GT de Internacionalização da Literatura

A Diretora de Relações Institucionais da LIBRE, Rosana de Mont’Alverne Neto esteve no último dia 6 de fevereiro na primeira reunião do ano do Grupo de Trabalho de Internacionalização da Literatura Brasileira, no MinC, em Brasília. Compartilhamos com os associados as informações principais do evento:

A reunião foi aberta pelo Mansur Bassit, Secretário da Economia da Cultura do MinC e coordenada pelo Guilherme Relvas, Diretor do Departamento do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB) do MinC, que informou estar em curso a elaboração de uma Portaria que instituirá formalmente e regulamentará o GT. A Diretora destacou, para a LIBRE, os pontos mais relevantes da reunião:

1 – presença de Fabrício Tanure, Assessor do Ministro da Cultura para assuntos do Projeto Brasil 200 Anos – celebração nacional em torno dos 200 anos da independência do Brasil, que se dará em 2022. Fabrício informou que não só a preparação do evento, mas as programações já começam em 2018 e se estenderão até 2022. O grande objetivo é valorizar nossa história, nossa cultura e nossos ícones, ampliando o conceito de “independência”: do país, da sociedade e dos indivíduos. Segundo ele, “a missão é engajar os brasileiros na criação de um projeto de país para o século XXI”. O projeto Brasil 200 anos será lançado, inicialmente, em plataforma digital, porém ainda não há previsão de data. Mansur Bassit sugeriu a divulgação do tema nas feiras internacionais. Fabrício encerrou pedindo a todos que enviassem sugestão de TEMA, como um slogan.

Sugestão da Diretora: O discurso do Fabrício Tanure é propositivo, mas carece de consistência, descrição de etapas, orçamento, fontes orçamentárias, órgãos envolvidos, distribuição de competências. A sugestão é que editoras da LIBRE, que tenham obras a respeito do assunto, poderão reivindicar recursos do MinC para tradução em inglês, francês, alemão e espanhol. Quem quiser contribuir com a sugestão do tema, a hora é agora. A ideia é boa: quem sabe a partir de 2019, com um novo Governo, o projeto deslancha?

2 – Foi distribuída uma planilha das Feiras Internacionais em 2018 onde o Brasil será participante, a saber: Paris, Bolonha, Londres, Bogotá, Buenos Aires, Shangai, Frankfurt, Sharjah, Guadalajara.

Os dois representantes do MRE (Ministério das Relações Exteriores), Beatriz Goes e Gustavo de Sá, reclamaram de escassez de recursos e informaram que o MRE vai comprar “menos espaço” para o estande brasileiro. Afirmaram que, neste ano eleitoral, os repasses serão liberados até 07 de julho e depois do 2º turno das eleições.

Quanto à presença de livros nas prateleiras dos estandes internacionais, observa-se que no MinC não há um planejamento e vontade política para colocar a cara do Brasil nas feiras internacionais, é tudo feito com muito improviso. Se a LIBRE quiser, de fato, propiciar a participação de suas editoras associadas nessas feiras, é necessário – com urgência – pensar em estratégias, planejamento e ações. Foi sugerido o início de um “debate de ideias”. Talvez, na próxima reunião do GT (prevista para dia 6 de março), já seria possível levar um ofício ou mesmo uma apresentação em PPT para expor os interesses e reivindicações dos Editores da LIBRE.

A Diretora, conforme informação dos representantes que participaram da reunião por Skype, lembrou que o Edital de Apoio à Tradução da FBN “está garantido”. Vamos torcer!

3 – Conclusões: Luiz Alvaro (BrazilianPublishers) questionou “qual o modelo de participação o Brasil vai ter nas Feiras Internacionais?”. Muito pertinente e oportuno o questionamento! Se os editores brasileiros pretendem, de fato, internacionalizar obras e autores, precisam ir à luta, começando a pensar nesse “modelo”.

A Diretora sugeriu, na reunião, um Programa específico do MinC/MRE/CBL-BP para levar EDITORES para as Feiras Internacionais. Foi citado o exemplo do Fellowship parisiense – consultem em: https://www.bief.org/Operation-4063-Fellowship/Fellowship-a-Paris-2018.html. Ponderou que é necessário aprender viajando, visitando editoras, trocando experiências, comparando custos, etc., porém o MinC e os demais entes públicos envolvidos têm de fazer a parte deles.

Proposta: a LIBRE debateria o assunto e apresentaria uma proposta para o MinC/MRE para a próxima reunião.

4 – A Cíntia (MinC), sugeriu um Calendário Brasileiro de Feiras, Festas, Festivais, Bienais e Salões Literários. Pediu que enviássemos as informações de nossos estados. Aqui em Minas a Câmara Mineira do Livro (CML), que ora presido, já tem pronto o Calendário 2018 de Feiras e Festivais Literários. 😉

Cordialmente,

Rosana de Mont’Alverne Neto
Diretora de Relações Institucionais da LIBRE

 

Confira o Projeto brasil 200 anos em:

Brasil-200-anos_apresentação

UM LIVRO NÃO É APENAS UM LIVRO

 

 

Tem gente que acha que um livro é um monte de frases encadeadas – seja na forma de poesia, seja na de prosa. E tem razão: um livro é uma pequena organização de ideias, traduzidas em palavras escritas e, eventualmente, números e imagens.

Mas o livro não é só isso. Por trás de cada livro, há um sistema muito maior: que me perdoem os escritores, mas um livro é resultado, sempre, de muito mais gente.

Quando você, talvez preguiçosamente deitado antes de dormir, talvez dentro de uma biblioteca deliciosamente silenciosa, quiçá no meio da praça enquanto passa um ônibus freando ou ainda no meio de uma dura reunião de trabalho, certamente não vai pensar em quanta gente deu um duro danado pra que essas ideias escritas chegassem a você.

Mas admita que é bastante interessante pensar narcisicamente numa corrente de pessoas que, sem que você sequer imaginasse que um dia precisaria tanto do desse ou daquele livro, pensaram em você. Ou seja, para elas, você já existia antes de o livro existir para você.

Primeiro, há uma pessoa jurídica dedicada a pensar na melhor forma de fazer os livros existirem, que é chamada “editora”. Evidentemente, uma editora é feita de pessoas físicas, que executam cotidianamente as tarefas que lhe dão vida.

E quando o livro começa a existir? Primeiro, o arquivo de texto que o escritor manda à editora é avaliado, e muitos dos textos enviados não são escolhidos; depois de avaliado e aceito, o texto é preparado (com frequência, ele é reescrito, leve ou radicalmente, sempre com concordância do escritor); após a preparação, ele é diagramado, ou seja, o livro é “desenhado”. Nesse “desenho”, os editores e designers têm de escolher a melhor fonte, a melhor distância entre as letras, onde vão os títulos, em que lugar começa o texto, qual o tamanho da página e como será feita a numeração, se as fotos serão coloridas ou em preto e branco etc… E a capa, que é a cara do livro: os editores tentam, sempre, dar a melhor capa para o livro, aquela que o torne atrativo, mas que também o represente.

O livro feito e impresso na gráfica precisa chegar aos leitores. Os livros são vendidos por livrarias virtuais e físicas, mas às vezes chegam às pessoas com vendedores porta a porta ou ainda vão parar nas bancas de jornal. Como o livro é também uma mercadoria, dá-se a essa operação o mesmo nome que recebe o trabalho de distribuir carros, televisores, xampus: logística.

Mas o livro tem algumas peculiaridades: são dezenas de milhares de novos livros, cada um diferente do outro, editados, todos os anos, apenas no Brasil. Não há nenhum outro produto no mercado capitalista que conte com tamanha variedade de conteúdo – os livros podem até se parecer por fora, porém acabam dizendo coisas completamente diferentes por dentro…

Esse processo de desenvolvimento de cada título faz com que o trabalho do editor seja, ao mesmo tempo, industrial e artesanal: há gráficas, equipamentos e organização de uma indústria, mas, ao mesmo tempo, mesmo o livro mais banal é feito de forma única.

O livro é, com todo esse trabalho envolvido, portanto, uma coisa muito valiosa. Uma coisa valiosa que a gente lê por prazer ou necessidade. São duas formas igualmente legítimas e necessárias de fruir o conhecimento. Os editores sabem disso, e trabalham sempre para que, se possível, as leituras sejam prazerosas mesmo que necessárias, e necessárias porque prazerosas.

Tem mais uma coisa que precisamos dizer: em cada estante desta feira, você vai encontrar o que a gente chama de projeto editorial. Uma editora não se constrói, nunca, com apenas um livro. As editoras vão construindo seu catálogo, que é ao mesmo tempo uma coleção de livros e uma história da própria editora. Quando você se deparar com aquele monte de livros à sua frente em qualquer desses estandes, tente por um momento imaginar o projeto editorial que aqueles livros que você está selecionando contam.

A Primavera Literária nasceu da ideia de expor os projetos editoriais diferentes, de empresas que se preocupavam a fundo com seus catálogos e com a coerência de seus livros. A gente luta para preservar esses projetos, porque eles são a essência do que a gente chama de bibliodiversidade. A bibliodiversidade, portanto, não se expressa só quantos títulos diferentes você encontra no mercado, mas quantos desses projetos diferentes podem sobreviver num ambiente econômico, cultural e político hostil para com a cultura e a diferença.

Leitores que reconhecem a importância de cada livro publicado são fundamentais para defendermos a diversidade, a liberdade e a igualdade de expressão. Em resumo, para defendermos a democracia.

Haroldo Ceravolo Sereza é editor da Alameda e jornalista. Foi Presidente da Libre por dois mandatos, de 2011-2015.