Sinopse: A participação das mulheres na cultura, na educação, literatura, na mídia e
na política hoje é ampla e diversificada. Mas nem sempre foi assim. Para
chegarmos ao estágio atual, desde o século XIX algumas mulheres pioneiras
precisaram erguer suas vozes e conquistar seu espaço, em sociedades que lhes
reservavam papéis secundários e restritos ao seio das famílias. A história da
vida e da luta de algumas dessas mulheres, do Brasil e de Portugal, é o que o
leitor vai encontrar nas páginas de Vozes femininas do Império e da República.
Organizado pelas professoras Yolanda Lima Lobo (UENF) e Lia Faria, o livro se
divide em três partes - falas imperiais, falas literárias e falas
apaixonadas - e reúne 11 artigos que, ao contar a história de mulheres
especiais, acabam fazendo um registro da evolução das sociedades brasileira e
portuguesa, do seculo XIX aos nossos dias.
Helena Morley, Nísia Floresta, Lúcia Miguel Pereira, Carmen Dolores e Maria
Luzia Schmidt Rehder, num passado mais distante, e Maria Yedda Linhares e
Myrthes de Luca Wenzel, mais próximas de nós, são as brasileiras de carne e
osso aqui retratadas. Alem delas, há uma análise da vida da personagem
central do romance A doce canção de Caetana, de Nélida Piñon. Do lado
português, ficamos conhecendo as primeiras participações das mulheres no
parlamento e na imprensa em dois artigos, em dois artigos que nos revelam um
pouco da história dos costumes e da educação em Portugal.
Para a professora de história Lana Laje, "ao se debruçar sobre o pensamento
de educadoras, escritoras e parlamentares, o livro mostra o papel das
mulheres na formulação e implementação de políticas educacionais nesse dois
países e, ao descortinar o dia-a-dia das meninas e jovens em processo de
aprendizagem, no espaço doméstico e escolar, acompanha também a construção e
consolidação de modelos de identidade feminina no universo cultural luso-
brasileiro".
VOZES FEMININAS do Império e da República: um livro oportuno e bem escrito
Por Arnaldo Niskier (da Academia Brasileira de Letras)
Conhecemos Lia Faria há muitos anos e sempre apreciamos a tenacidade com que
desenvolve as atividades a que se dedica, sobretudo no que se refere à
educação.
Como educadora, teve em Darcy Ribeiro o paradigma que seguiu, com grande e
dedicada fidelidade.
O trabalho frente à Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro
concomitantemente com a presidência do Conselho Estadual de Educação - CEE
são testemunhos da sua exemplar atuação.
Na UERJ é docente respeitada e querida tanto na graduação quanto na pós-
graduação. Em votação direta, assumiu a direção da sua tradicional Faculdade
de Educação, berço de tantos feitos pedagógicos.
Agora, antenada com a importância que passou a ser dada à questão de gênero,
organizou este livro com a também professora Yolanda Lobo, pesquisadora do
Núcleo de Estudos sobre Exclusão e Violência do Centro de Ciências do Homem
da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), em que
fica claro que se trata do posicionamento feminino de identidades luso-
brasileiras durante os períodos do Império e da República.
Um conjunto de autoras realizou pesquisas voltadas prioritariamente para as
áreas da educação e da cultura, divididas em três partes: falas imperiais,
literárias e apaixonadas.
É atraente a abordagem feita por Maria Célia Chaves Vasconcelos, considerando
a educação doméstica, ministrada à realeza entre os séculos XVI e XIX, como
modalidade de ensino.
Os ricos propiciavam aos filhos eternas aulas particulares, com os mestres,
morando nas casas dos alunos e, além de atuarem como docentes, acompanhavam
seus discípulos nas atividades do dia-a-dia, como ir às missas, passeios, etc.
A preferência por preceptoras estrangeiras tornou-se um hábito que se
alastrou, chegando às páginas dos jornais, nos quais se ofereciam, propalando
as próprias qualidades.
A leitura desta obra é um exercício extremamente prazeroso. Vejam o texto de
Constância Lima Duarte, "Nísia Floresta e a educação feminina no século XIX",
que leva o leitor a ter vontade de lê-lo mais e cada vez mais, devido a
provocação da própria Nísia Floresta: "A esperança de que, nas gerações
futuras do Brasil, a mulher assumirá a posição que lhe compete, nos pode
somente consolar de sua sorte presente".
Nísia Floresta foi responsável pelas inovações surgidas no Colégio Augusto,
no Rio de Janeiro (1838-1855), considerado à época introdutor do Latim, do
Francês, da História e da Geografia nas escolas. Pela primeira vez, houve a
preocupação com a limitação de vagas por turno, visando à qualidade do ensino.
Nísia viajou a diversos países e voltou ao Brasil, defendendo a tese de
que "o progresso de uma sociedade depende da educação que é oferecida à
mulher."
Importante ressaltar a qualidade das referências bibliográficas registradas
pelas autoras, demonstrando o quanto se dedicaram nas pesquisas que se
dispuseram a fazer. O livro, pois, é extremamente oportuno, bem escrito, e
certamente, fará sucesso entre os que tiverem o privilégio da sua leitura. É
recomendável a todos aqueles que querem conhecer um pouco mais da visão
dessas mulheres valorosas, com suas falas imperiais, literárias ou
apaixonadas.
Sumário: Apresentando vozes e falas luso-brasileiras, a título de introdução, 13
Yolanda Lobo e Lia Faria
I - FALAS IMPERIAIS
Vozes femininas do Oitocentos: o papel das preceptoras nas casas brasileiras,
19
Maria Celi Chaves Vasconcelos
Diário de uma e outras meninas: práticas domésticas e educação. Diamantina,
MG, fins do século XIX, 47
Suely Gomes Costa
II - FALAS LITERÁRIAS
Vozes católicas: um estudo sobre a presença feminina no periódico A Ordem
(Anos 1930-40), 81
Ana Maria Bandeira de Mello Magaldi
Nísia Floresta e a educação feminina no século XIX, 105
Constância Lima Duarte
Carmen Dolores: as contradições de uma literata da virada do século, 145
Rachel Soihet e Flávia Cópio Esteves
Ecos de um passado feminino: entre escritos e sentimentos, 171
Marilena A. Jorge Guedes de Camargo
"A Doce Canção de Caetana": meu olhar, 203
Tânia Navarro Swain
III - FALAS APAIXONADAS
Os discursos do poder e as políticas educativas na governação de Oliveira
Salazar: as intervenções das mulheres na Assembléia Nacional (1946-1961), 233
Áurea Adão / Maria José Remédios
Os múltiplos olhares de Maria Yedda Linhares: educação, história e política
no feminino, 279
Lia Ciomar Macedo de Faria, Edna Maria dos Santos e Rosemaria J. V. Silva
Alcachofra-dos-telhados: lições de pedagogia de uma sonhadora, 305
Yolanda Lôbo
Na senda do feminismo intelectual, 335
Zília Osório de Castro
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