Autêntica lança coleção “Obras Incompletas de Sigmund Freud”

Autêntica lança coleção “Obras Incompletas de Sigmund Freud”

Comparado ao restante do mundo ocidental, o Brasil está entre os países em que Freud é mais lido e em que a prática que ele fundou, a psicanálise, ainda goza de considerável prestígio. Não obstante a isso, a questão da tradução de sua obra nunca foi adequadamente equacionada, envolvendo disputas terminológicas e clínicas. Agora, a Autêntica Editora lança a coleção “Obras Incompletas de Sigmund Freud”, que pretende oferecer aos leitores uma nova tradução dos textos do psicanalista, mais moderna e rigorosa, respeitando o rigor filológico, o cuidado estilístico, a precisão conceitual e adotando o vocabulário efetivamente consolidado nas principais vertentes da psicanálise.

A Coleção, coordenada por Gilson Iannini e Pedro Heliodoro Tavares, terá duas vertentes principais: uma série de volumes organizados tematicamente, ao lado de outra série dedicada a volumes monográficos. E para sua estreia, dois livros chegam às livrarias: Sobre a concepção das afasias: um estudo crítico, inédito no Brasil, que ganha a tradução de Emiliano de Brito Rossi, e As pulsões e seus destinos, em edição bilíngue alemão-português,  tradução de Pedro Heliodoro Tavares, além de três ensaios que comentam o texto de Freud.

Sobre a concepção das afasias: um estudo crítico, lançado originalmente em 1891, é o primeiro livro escrito e publicado por Freud. Escrito antes da cunhagem do termo “Psicanálise”, a justificativa para sua não inclusão nas ditas obras completas é a alegação de que o teor do texto seja mais neurológico que psicanalítico. Entretanto, mesmo tendo sido escrito antes de Freud se tornar o “pai” da Psicanálise, esta obra é fundamental para a compreensão de seus escritos posteriores, sobretudo por ser possível analisar a relação entre o psiquismo e a linguagem, que claramente pautou o pensamento freudiano.

O livro apresenta uma discussão com a Neurologia da época acerca dos distúrbios referentes à compreensão e/ou à articulação da linguagem: as afasias. Nele, Freud, então neurologista, discute com os grandes nomes da Medicina que se dedicaram ao assunto em sua época e propõe a noção de um aparelho de linguagem, antes mesmo de formular uma teoria do aparelho psíquico. Outro ponto notável da obra é o abandono de Freud às concepções hegemônicas do localizacionismo defendidas por seus mestres, para idealizar e tornar-se o cofundador de uma concepção dinâmica tanto do psiquismo quanto da linguagem em suas funções e disfunções. Ao final do livro, um posfácio de Emiliano de Brito Rossi comenta a obra e sua tradução.

O outro lançamento é uma edição bilíngüe e anotada de As pulsões e seus destinos. Não é exagero dizer que este texto é um clássico do século XX. É o texto que mostra de maneira clara como questões terminológicas presentes no texto são também questões clínicas. Este livro causou grande impacto não apenas para a Psicologia, mas para a Filosofia, Teoria Social, Estética, Literatura, entre outras áreas, justamente por tratar – como até então ninguém havia feito – das escolhas e desejos humanos, das lógicas de nossas fantasias e dos nossos sentimentos. Christian Dunker define bem a importância do tema e das teorias elaboradas por Freud nesse livro: “a teoria das pulsões, bem como a teoria do inconsciente, está para a Psicanálise assim como a Anatomia e a Fisiologia estão para a Medicina”.

O psicanalista apresenta com muita clareza seu conceito de pulsão, que está na base dos processos que determinam os modos como nós amamos, desejamos, sofremos. Mas uma das principais razões pela qual este volume é um dos que inauguram a Coleção é que Trieb é o termo que aglutina mais problemas de tradução da obra de Freud. Várias tentativas foram feitas: “instinto”, “impulso”, “pulsão”. Essa edição acolheu o vocabulário psicanalítico brasileiro, consolidado depois de décadas de intenso debate, para utilizar o termo “pulsão”. Além do texto de Freud, o livro apresenta três ensaios complementares: no primeiro, o tradutor Pedro Heliodoro Tavares discute justamente os desafios da tradução do conceito freudiano de Trieb e justifica a opção por pulsão; no segundo, Gilson Iannini reflete sobre o estatuto epistemológico desse conceito fundamental, contextualizando-o no debate científico da época e mostrando que a própria história do conceito de pulsão na obra de Freud coincide com a história de suas expectativas com relação ao pensamento científico; e o último ensaio, de Christian Dunker, estuda a dimensão clínica do texto de Freud, discutindo a gramática das pulsões. Os três ensaios sobre a teoria das pulsões são tratados de forma distinta e se complementam: o primeiro de natureza linguística, o segundo de natureza epistemológica, o terceiro de natureza clínica.

De acordo com Gilson Iannini, a tradução dos livros da coleção Obras Incompletas de Sigmund Freud é o diferencial das publicações: “Uma tradução nunca é neutra ou anódina. Há dimensões não apenas linguísticas (terminológicas, semânticas, estilísticas) envolvidas na tradução, mas também éticas, políticas, ideológicas, teóricas e, sobretudo, clínicas. O texto de Freud não é um texto literário, embora qualidades literárias não lhe faltem. Ele é antes um texto que embasa uma determinada prática. Uma prática que tem na atividade clínica sua principal destinação. Neste sentido, escolhas terminológicas não são sem efeitos práticos. Representar o sofrimento humano e os tratamentos possíveis que podemos dar a ele não são tarefas indiferentes à maneira como falamos deles e como os tratamos conceitualmente.” E completa: “A Coleção não pretende apenas oferecer uma nova tradução, direta do alemão e atenta ao uso dos conceitos pela comunidade psicanalítica brasileira. Ela pretende ainda oferecer uma nova maneira de organizar e de tratar os textos”.

Os próximos lançamentos já previstos para a Coleção são: Amor, sexualidade e feminilidade; Arte, literatura e os artistas; Compêndio de Psicanálise (edição bilíngue); Conceitos fundamentais da Psicanálise; Fundamentos da clínica psicanalítica; Histeria, obsessão e demais neuroses; e Neurose, psicose, perversão.

Editor e coordenador da coleção – Gilson Iannini é psicanalista, filósofo, editor. Professor do Departamento de Filosofia da UFOP. Doutor em Filosofia (USP) e mestre em Psicanálise (Université Paris 8). Autor de Estilo e verdade em Jacques Lacan (Autêntica Editora).

Coordenador da coleção e coordenador da tradução – Pedro Heliodoro Tavares é psicanalista, germanista, tradutor. Professor da Área de Alemão – Língua, Literatura e Tradução (USP). Doutor em Psicanálise e Psicopatologia (Université Paris 7). Autor de Versões de Freud – breve panorama crítico das traduções de sua obra (7Letras) e coorganizador de Tradução e Psicanálise (7Letras).

Tradutor e autor do posfácio de Sobre a concepção das afasias: Um estudo crítico – Emiliano de Brito Rossi é psicanalista, germanista e tradutor. Doutor em Letras (Língua e Literatura Alemã) pela USP e Psicólogo pela UFMG. Desenvolve pesquisas nas áreas de Tradução, Psicanálise e Filosofia. 

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