Entrevista: Ivana Arruda Leite

Entrevista: Ivana Arruda Leite

Para a contista e romancista, a Primavera dos Livros ajudar a furar o "esquema imposto pelos grandões"

A escritora Ivana Arruda Leite mudou o compasso da respiração e ingressou em nova cadência interna. Após três livros de contos, desde Falo de Mulher, em 2002, a também blogueira e cronista lançou seu primeiro romance, Hotel Novo Mundo, pela Editora 34. E já tem outro pronto, Alameda Santos, previsto para o início do ano que vem.

Os contos, que costumavam nascer em questão de poucos dias, foram substituídos pelo romance, que, nesse caso, levou quatro anos em produção."Entrei em outro ritmo. Sempre fui muito ansiosa, e acreditava que minha respiração era o conto. Mas não é bem assim", diz. "Desde então, não escrevi mais contos."

O processo de construção do romance, por sua vez, mostrou-se muito dinâmico. "Escrevo a sinopse e a vou engordando por dentro; esse é o grande barato", explica. Hotel Novo Mundo se passa no centro de São Paulo, onde vários personagens se entrelaçam à figura-chave de uma prostituta traída pelo marido rico, que larga tudo, inclusive a boa vida. De acordo com Ignácio de Loyola Brandão, "a ironia, o sarcasmo e o humor cortante saltam desde a primeira página". Mas Ivana garante que, diferentemente dos seus contos anteriores, em Hotel Novo Mundo, "o clima é legal, as pessoas são humanas, têm muita solidariedade, tudo termina bem, e é uma história de amor".

Por isso, "tinha certeza de que seria taxada de alienada", lembra a escritora. "A tendência da literatura contemporânea é uma coisa muito sem saída, sem perspectiva, com todo mundo à beira de um tiro no ouvido. Isso quando não vai para a marginalidade total – crime, prostituição, drogas, morte. E nesse romance, embora o cenário seja um hotel na 'boca', é como se as personagens tivessem uma ilha de humanidade ali no meio."

Ninguém a acusou de alienada. Na verdade, o crítico e ensaista Manuel da Costa Pinto, os escritores Cadão Volpato e José Rufino dos Santos, entre outros, fizeram elogios ao livro.

Outra novidade apontada por Ivana é o maior distanciamento. Nos contos, o texto é confessional, com personagens próximos à realidade da autora — "da questão da mulher, da quarentona, da cinquentona, da sessentona". Hotel Novo Mundo, no entanto, representou o que ela chama de radical exercício de criação. "Não conheço nenhum dos personagens na vida real, eles não se parecem com nenhum dos meus amigos. O romance caiu do além e por isso também foi tão bacana: a experiência de investigar e criar um mundo sem ter a menor referência dele."

Depois do fim do mundo
Ivana também saúda a nova geração de autores. Se a geração 90 vive às vésperas do fim do mundo e reúne um coro de descontentes, que Hotel Novo Mundo contraria, ela acredita que a geração seguinte, chamada geração 2000, está num mundo que já acabou. "É uma literatura pop, toda construída, muito irreverente, sem falar nas intersecções de linguagem."

Nesse caso, e escrevendo com qualidade, a escritora cita Carol Bensimon, Emílio Fraia, Vanessa Bárbara, Douglas Diegues, Antonio Xexeneski, Bruna Beber.

Hotel Novo Mundo teve apoio de programa de incentivo da Petrobras e pode ser encontrado no estande da Editora 34, durante a Primavera dos Livros, de 10 a 13 de setembro, no Centro Cultural São Paulo, com entrada gratuita. Ivana também deve passar por lá. "Já participei de uma Primavera e gostei muito. Acho esse evento super importante. Qualquer iniciativa de divulgação da literatura que fure o esquema imposto pelos grandões deve ser incentivada e é muito bem-vinda."

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