Joseph Roth expõe com humor negro as marcas dos deslocamentos no entreguerras europeu

Joseph Roth expõe com humor negro as marcas dos deslocamentos no entreguerras europeu

Como retomar a vida após anos de guerra? Pois essa parece ser a questão que Joseph Roth (1894-1939) tenta responder com a trama de Hotel Savoy, publicado pela Estação Liberdade, romance de tiro curto narrado por Gabriel Dan, um judeu russo egresso de um campo de concentração na Sibéria. O título refere-se ao hotel, de localização não revelada (pode-se especular a Polônia), onde o personagem se instala em sua jornada de libertação ao fim da Primeira Guerra.

O Hotel Savoy é um gigantesco abrigo a reunir os órfãos da guerra, os desterrados feridos pelos cacos do desmoronamento do Império Austro-Húngaro, e os fantasmas, errantes e reais, da Revolução Russa. Pelos olhos de Dan o leitor é apresentado à eclética profusão dos hóspedes-personagens de Roth, cada qual com suas misérias e grandezas — como o tio Phöbus Böhlaug e a dançarina Stasia, por quem Dan nutre sentimentos ambíguos de interesse e rejeição. Com quase mil apartamentos e sob uma estrutura de hospedagem hierarquizada, o hotel sintetiza as transformações sociais e políticas que o entreguerras impunha à Europa.

Sobre o autor
Nascido em 1894 em Brody, nos confins do Império Austro-Húngaro e atual Ucrânia, Joseph Roth é de origem judaica. Foi testemunha ocular das transformações sociais que agitaram a Europa Central, no período do entreguerras. Jornalista bem-sucedido desde que se instalou em Berlim em 1920, tinha personalidade nômade, a ponto de quase nunca ter tido um lar de fato (dizia-se que seus bens eram “três malas”). Na literatura, caracterizou-se pela prosa concisa e foi rotulado, também, de poeta do cotidiano, tendo tido muitas obras de ressonante repercussão, casos de Jó (1930) e A marcha de Radetzky (1932). Morre pouco após desabar no Café de Tournon, em Paris, em 1939. 

Trechos de Hotel Savoy

“Na manhã seguinte, vejo Stasia nos braços de Alexandrinho, descendo a escada. Agora sei que Stasia fez uma grande bobagem. Mas a entendo. As mulheres fazem suas bobagens não como nós, por descuido e imprudência, mas quando estão infelizes.”

“Como sombras mudas as pessoas passam uma ao lado da outra, é uma reunião de fantasmas, aqui caminham alguns que já estão há muito tempo falecidos. Há milhares de anos este povo anda por ruelas estreitas.”

“Uma mulher saiu ruidosamente do quarto vizinho, perfumada e dentro de uma estola cinza de plumas — é uma dama, digo para mim mesmo, e desço os últimos degraus, firme atrás dela, examinando alegremente suas botinhas de verniz. A dama detém se por um momento junto ao porteiro, eu alcanço a porta ao mesmo tempo que ela, o porteiro faz um cumprimento; lisonjeia me o fato de o porteiro talvez me tomar como acompanhante da rica dama.”


Hotel Savoy
Joseph Roth
Tradução do alemão Silvia Bittencourt
Editora Estação Liberdade
184 páginas
14 x 21 cm
978-85-7448-229-3
R$ 38,00
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