Leia aqui o discurso da posse de Raquel Menezes, nova presidente da Libre

Leia aqui o discurso da posse de Raquel Menezes, nova presidente da Libre

Prezados senhores, prezados libreiros:

Chego, após poucos anos como associada, mas uma intensa participação na diretoria da gestão passada, à Presidência de uma entidade que sempre admirei e prezei. Entendo que, apesar do tempo aparentemente breve da associação de minha editora à LIBRE, a confiança que foi posta em mim para exercer esta função representa a vontade de um expressivo grupo de associados, vontade a cuja altura lutarei, dia após dia, para estar. O que chamo de vontade? Vou tentar dizê-la em uma frase, para depois explicar melhor: o mercado editorial precisa ser mais equilibrado, ou, numa palavra veemente, mais justo.

O papel da LIBRE, ou melhor, a vocação da LIBRE, é representar, num mercado que reproduz os vícios de qualquer mercado, mas, também como qualquer mercado, possui uma dinâmica que abre algumas frestas, editoras independentes que, queiramos ou não, precisam competir com o mínimo de desigualdade com os grandes grupos empresarias e suas demandas marqueteiras. Queiramos ou não, outrossim, as editoras que representamos possuem quantidade considerável de um material que vai ao mundo, a partir da autonomia de nossas casas, com o precípuo objetivo de melhorar o mundo, investindo no livro e na leitura como veículos de transformação de pensamento e, consequentemente, transformação social. É mais ou menos assim que entendo uma ideia norteadora de nossos princípios: a bibliodiversidade. Em tempos de discussão ecológica de sustentabilidade, quando entendemos que o mundo, enquanto ser vivo, precisa da diferença; em tempos de discussão social de direitos civis, quando a intolerância não é mais suportada como fato dado nas relações humanas; em tempos de redefinição do papel das minorias e de novas configurações de informação e comunicação, precisamos, cada vez mais, da diferença, da diversidade no universo do livro e do mercado que o acolhe, precisamos, pois, da bibliodiversidade. Para lidar sem ingenuidade com o mercado, daremos continuidade às pesquisas já iniciadas nas gestões anteriores. E nada será possível se não profissionalizarmos a entidade, a fim de ampliar a nossa capacidade administrativa e organizacional, para que os associados possam acompanhar pelo menos anualmente nosso balanço. É muito importante montar um quadro de funcionários que se relacione com a entidade, independentemente da diretoria em vigência, entendendo nosso programa político, além de desenvolver uma melhor participação da entidade nas mídias, dando conta da nossa importância dentro do mundo editorial.

À LIBRE cabe cobrar, produzir condições de igualdade nas compras governamentais, por exemplo, provocando uma nova relação entre o governos, os governos, e os produtores do mais nobre produto cultural, o livro, rompendo os atalhos que fazem das grande editoras, por vezes, próximas demais aos gabinetes dos poderes.  O editor independente tem um papel, irrevogável, e cabe a nós discutirmo-lo com os mais variados setores da cultura. Represento inúmeras editoras, mas quem realmente nos interessa? O leitor, razão de ser final de todos os nossos esforços, que não são poucos, que não são fáceis. Levar livros de qualidade ao leitor é o que chamei acima de contribuir para a transformação do mundo, e gerir uma entidade como a nossa tem como pressuposto, saliento, respeitar a saudável divergência que há entre os associados, pois nossa democrática pluralidade não constitui aporias, pelo contrário, nos torna mais fortes e interessantes.

Nada desse objetivo seria possível não fossem as gestões anteriores. Haroldo Ceravolo, da Alameda, o presidente anterior, foi responsável por um crescimento exponencial da LIBRE, não apenas no que diz respeito à quantidade de editoras associadas, mas também no que toca à estrutura administrativa. A partir da sua gestão, a entidade passou a ter uma sede, Quartel-General imprescindível para nos dar base, e a diretoria está dividida em setores, o que facilita imensamente o trabalho de todos. Só conseguiremos trabalhar com a força que sei que temos porque há chão sob nossos pés, o que não seria possível sem o trabalho notável de Haroldo Ceravolo, que herdo com alegria e grande senso de responsabilidade.

A nova gestão da LIBRE pretende ser uma voz de cobrança e afirmação: cobrança de maior espaço para nossos associados, afirmação de nossos livros e nossos valores. Há um aspecto fundamental e urgente que, neste primeiro momento de trabalho, nos move: debater, no limite do entendimento e da intervenção, a Lei do Preço Fixo. Precisamos reforçar no Brasil um debate já amadurecido em outras partes do mundo, que diz respeito à movimentação das peças no jogo do mercado editorial e da cadeia do livro. Entendo que a participação da LIBRE é fundamental para que esse tabuleiro seja sustentável, e discutir com seriedade a Lei do Preço Fixo é um dos movimentos a serem feitos neste jogo. Para isso, e para mais que isso, nossa gestão, sobre o solo criado pela anterior, pretende incrementar a relação com diversas outras entidades ligadas ao livro, como a ANL (Associação Nacional de Livrarias), já que queremos livrarias, especialmente as pequenas, fortes, e também com o governo federal e outros governos, pois não é favor algum os nossos dirigentes, tanto no executivo como nos legislativos, respeitarem o livro e a bibliodiversidade, entendendo-a como não menos que política de Estado. 

Para que nossa missão seja empreendida de modo seguro, contamos com uma equipe notável. Em um momento decisivo para o crescimento e a profissionalização da Libre, é estratégico, além de entender a entidade historicamente, usar esse entendimento para a semeadura do futuro. Para isso, nada melhor do que o precioso auxílio de ex-presidentes, ex-vice-presidentes e tradicionais militantes, que compõem, por exemplo, o conselho fiscal da nossa gestão. 

E nossa gestão enfrentará um momento de crise. À crise perene do livro no Brasil, multifacetada crise, que passa pelo pouco incentivo à leitura, pelo histórico educacional que beira a indigência etc., junta-se uma crise recente, cujos desdobramentos ainda ignoramos, e que nos impõe ter de criar novas táticas para promover alianças e aumentar a capacidade econômica das editoras membros da LIBRE. É por isso que novos eventos são tão importantes, e ressalto o quanto me alegra tomar posse ritualmente na abertura da primeira Primavera que a LIBRE realiza em Belo Horizonte. É importante que empreendamos um processo, já iniciado, de internacionalização, a fim de nos tornarmos mais fortes e representativos. Além disso, pretendemos organizar cursos e seminários, tendo em vista a formação do editor e dos funcionários das editoras, em diferentes áreas de atuação. Queremos também que a LIBRE se aproxime cada vez mais da universidade, para que se torne ainda mais poderoso o espectro e a qualidade das nossas discussões, e também para que possamos ajudar as faculdades na formação de profissionais competentes e reflexivos.

Nossos eventos serão vários. A mais antiga Primavera, a do Rio, já tem uma histórica de caráter até afetivo, além de manter apoios, apesar de tudo. Nossa principal realização pública, que este ano completa Bodas de Cristal, gerou outras, como esta, em BH, e as de São Paulo e a de Salvador. Fizemos a Primaverinha, no Rio, em 2104 e 2015, e voltaremos, pelo segundo ano consecutivo, a Paraty, em parceria com a Nuvem de Livros.

Antes de concluir, gostaria de agradecer, especialmente, ao Haroldo Ceravolo, mais uma vez, e também à Cristina Warth, da Pallas, à Renata Farhat, da Peirópolis, ao Araken Ribeiro, da Contracapa, ao Angel Bojadsen, da Estação Liberdade e à Camila Perlingeiro, da Pinakotheke, pelo trabalho que permitiu chegarmos até aqui. Eu me referi, no começo, à vontade de um grupo expressivo de associados, que me incumbiu da nobre tarefa que, a partir de hoje, realizo oficialmente. Vontade será, de fato, uma das palavras-chave de minha, nossa, gestão: vontade de realizar, de aprimorar, de ajudar a LIBRE a ser, cada vez mais, uma forte representante da justiça editorial, da independência e da bibliodiversidade.

Raquel Menezes
Presidente

24/06/2015
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