Ônibus-biblioteca: Moscas mutantes fazem sucesso na zona leste

Ônibus-biblioteca: Moscas mutantes fazem sucesso na zona leste

Francisca do Val, escritora e bióloga, promove oficinas com microscópio para observação de insetos

No Jardim Colorado, em São Mateus, zona leste de São Paulo, um professor tirou uma turma inteira da sala de aula. Levou seus alunos para a rua, onde ficaram todos a ver moscas. Moscas propriamente, não. Drosófilas, das convencionais e das mutantes, além de mosquitos transmissores da dengue, pragas de goiaba, besouros, cigarras e borboletas. O caso aconteceu na Praça João Galli, quando passou por lá a concorrida oficina de Francisca do Val, bióloga, artista plástica e autora do livro "Drosófila, a mosquinha famosa" (Terceiro Nome).

Parte do Projeto Ônibus-Biblioteca, da Prefeitura de São Paulo, as oficinas têm apoio da Libre-Liga Brasileira de Editoras. Com a presença de autores das editoras associadas à entidade, promovem atividades lúdicas e educativas uma vez por mês, em cada um dos 28 roteiros cobertos semanalmente pelos ônibus nas periferias paulistanas. A chance de observar as coisas em um microscópio-periscópio, em que a luz vem de cima atravessa todo o objeto que está sendo analisado, deu tremenda popularidade aos encontros com Francisca do Val.

"Eu levo o microscópio, o que já atrai a atenção. É uma aventura para crianças e adultos, uma oportunidade de ver algo que nunca viram. Porque poucas escolas têm microscópio e observar os objetos aumentados dá impressão de mágica", diz Francisca, professora colaboradora na pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP). Para as oficinas, ela leva material para desenho, o equipamento e tubinhos de 3 mm com uma dúzia de insetos. Além das drosófilas tradicionais, com asas funcionais e olhos vermelhos — as mais usadas em pesquisas –, pega do laboratório da USP drosófilas que sofreram mutações genéticas, com olhos brancos, sem asas ou com asas que não se fecham, entre outros insetos.

Curiosidade científica
Na praça João Galli, a bióloga conta que as crianças desenharam inspiradas no que viram, e ela autografou nos próprios trabalhos delas. "Foi ótimo. Era uma praça com mesas, bancos, o apoio do professor, que deixou os alunos não irem à aula. Uma oficina especial", lembra. Francisca esteve também no Jardim Miriam, na Cidade Dutra, onde jovens e adultos, decidiram, além de observar as moscas, catar formigas para as ver de perto; e no Jardim Ângela, quando, mais de uma vez, também se quis colocar folhas de capim no microscópio.

Na opinião da escritora, as oficinas durante a semana atraem mais público. E, embora o seu livro seja dirigido ao público infanto-juvenil, muitos adultos se interessam pelo tema ou têm a curiosidade científica de olhar no microscópio. "Pai e mãe indo para a igreja, trazendo os filhos da escola, muita gente quer ver o mosquito da dengue", descreve. Para os frequentadores do Ônibus-Biblioteca, sócios ou novos inscritos que vêm fazer sua ficha, há o prazer adicional de conhecer ao vivo um autor, o que enrique a experiência da leitura. Como "Drosófila, a mosquinha famosa" não está no acervo permanente dos ônibus, Francisca sempre leva ela mesma alguns exemplares, junto com lupas manuais, para doação. "As crianças gostam. Mas, infelizmente, o Brasil não tem muita cultura de divulgação científica", observa.

O livro traz informações surpreendentes. "Trabalhei 40 anos com essa mosca e pouca gente sabe que mosca toma banho, namora", explica. Segundo a bióloga, as pesquisas com a mosca ajudaram a entender os processos genéticos e de hereditariedade. São usadas para estudos de cirurgia médica e da evolução. Parece incrível, mas as drosófilas têm 60% de similaridade com os seres humanos, com trechos inteiros de DNA idênticos aos nossos. Com a vantagem de que uma nova geração delas surge a cada 15 dias, o que permite acompanhar as heranças genéticas, especialmente entre as espécies mutantes, até a quarta geração ou mais. Há 120 tipos de moscas e mosquistos na região Tropical da América do Sul; 5 mil espécies da família das drosófilas.

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