Primavera: “Colonização ao contrário” no Ano França-Brasil

Primavera: “Colonização ao contrário” no Ano França-Brasil

Evento que começa no próximo dia 10, no CCSP, revela tendência do mercado francês de valorizar autores da África, da Ásia ou de outros lugares que reflitam choques culturais com o Ocidente

A literatura francesa contemporânea perdeu seu ar exclusivamente parisiense e se abriu para o mundo. Autores vindos da Argélia, do Vietnã, da Costa do Marfim, de outros países da África e do Caribe ocupam o mercado livreiro na França e despontam em premiações consagradas, como o Goncourt. Um movimento de "colonização ao contrário", na opinião de Angel Bojadsen, diretor editorial da Estação Liberdade, que estará na Primavera dos Livros São Paulo 2009, de 10 a 13 de setembro, com vários títulos de literatura francesa. O Ano da França no Brasil também é celebrado no evento, entre outras, com as obras do selo La Joie de Lire, criado pela Sá Editora especialmente para as comemorações entre os dois países. "Trazemos a literatura pop da França", explica Eliana Sá, diretora da editora.

No catálogo da Sá Editora, são 11 livros escritos originalmente em francês, em que não faltam autores de origem não-francesa, como o argelino Yasmina Khadra, autor de O Atentado, com 10 mil exemplares vendidos no Brasil, ganhador do prêmio Goncourt de 2005. A obra integra a Trilogia da Paz, junto com As andorinhas de Cabul e As sirenas de Bagdá, todos traduzidos pela Sá Editora, que também lançou a biografia de Zinedine Zidane, ex-jogador da seleção francesa que ajudou o país a ganhar a Copa de 1998, filho de imigrantes argelinos.

A Estação Liberdade tem duas obras vindas da França finalistas do prêmio Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). Topografia ideal para uma agressão caracterizada, traduzida por Flávia Nascimento, é de Rachid Boudjedra, que, nascido na Argélia, vive entre Paris e Argel. Nesse livro, ele inverte o mito da 'cidade luz', para apresentar uma metrópole subterrânea e opressora. "É uma obra muito forte, dura, sobre alguém que vai para a França e se perde no metrô de Paris. Devido a todas as barreiras culturais, não consegue sair de lá", adianta Angel. Seu outro título no Jabuti, Promessa ao Amanhecer, tradução de Mauro Pinheiro, foi escrito em francês por Romain Gary, um diplomata nascido na Lituânia (quando ainda era parte da Rússia) e formado em Paris. "Os dois foram aculturados e refletem os conflitos modernos da civilização", continua o editor.

O Oriente e o mundo árabe muçulmano estão em outras obras da coleção Latitude da Estação Liberdade, voltada à francofonia – conceito que define a região não geográfica, mas linguística, dos povos que têm em comum o idioma francês. É o caso de Alá e as crianças-soldados, de Ahmadou Kourouma, da Costa do Marfim; ou Syngué Sabour Pedra-de-paciência, Prêmio Goncourt 2008, do persa Atiq Rahimi. Nesse último, uma afegã vela o marido que vegeta num hospital. Como a syngué sabour da mitologia persa, a pedra negra que recebe os lamentos dos peregrinos, o homem ouve a confissão da mulher, de maneira inimaginável num país islâmico, com tudo o que ela mantivera para si, soterrado sob a tradição.

O pop francês
Do outro lado do multiculturalismo, contudo, a França está na Primavera dos Livros com sucessos de caráter tipicamente local. Eliana cita, da Sá Editora, os títulos de David Servan-Schreiber, médico e psiquiatra, ícone na área da saúde emocional: Curar o stress, a ansiedade e a depressão sem medicamento nem psicanálise; e Sete passos para curar – guia prático da nova medicina das emoções. O primeiro já vendeu 600 mil exemplares na França, desde 2004. No Brasil, está em 13ª edição.

Já as obras da jornalista Christiane Collange falam diretamente às leitoras. A autora foi chefe de redação da revista L'Express e chegou aos 74 anos sem nenhuma plástica, com três ex-maridos, quatro filhos e 15 netos. No livro A segunda vida das mulheres, organizou entrevistas com cem mulheres da classe média francesa, sobre o que desejam ou fazem após os filhos deixarem as casa e elas se tornarem avós. Já vendeu 100 mil exemplares desde o seu lançamento na Europa. "Com o apoio da embaixada francesa, os autores vieram ao Brasil para o lançamento de seus livros, um fator fundamental para a promoção e o marketing desses títulos, e a troca cultural como um todo", completa Eliana.

Para quem prefere os momentos de ouro do heroísmo francês, os Cadernos da guerra e outros textos (Estação Liberdade, tradução de Mário Laranjeira), recém lançados, trazem arquivos pessoais que Marguerite Duras legou ao Estado francês em 1995. Escritos entre 1943 e 1949, foram conservados nos "armários azuis" de sua casa em Neauphle-le-Château. Vão além da Segunda Guerra Mundial, cobrindo a infância da escritora na Indochina, a resistência francesa à ocupação alemã e a libertação de Paris, entre outras cenas.

Sá Editora, Estação Liberdade, Pallas, Cosac Naif, Iluminuras, Editora 34, entre outras, estarão com obras de literatura francesa nos estandes da Primavera do Livro São Paulo 2009. O evento, organizado pela Libre-Liga Brasileira de Editoras, é o grande encontro das editoras independentes. Abre na próxima quinta-feira, dia 10, às 10h, e vai até domingo, 13 de setembro, no Centro Cultural São Paulo. Entrada gratuita.

França adota políticas de proteção ao livro
Além dos livros, a política. Também ela aproxima a França da Libre – Liga Brasileira de Editoras, nas comemorações do Ano da França no Brasil, na Primavera dos Livros São Paulo 2009, que começa no próximo dia 10, no Centro Cultural São Paulo. "O mercado francês luta bravamente contra a invasão do best seller americano", diz Eliana Sá (Sá Editora), diretora da Libre, entidade que conta 106 editoras independentes associadas em defesa da bibliodiversidade. Ao contrário do Brasil, contudo, lá existem políticas públicas para valorizar e estimular a edição independente, o conteúdo e o mercado local.

"Na França, há toda uma legislação de proteção ao editor, além do Bief-Bureau international de l'édition française, dedicado a promover as obras francesas no mercado externo, e que trabalha fortemente com as editoras francesas independentes", aponta Eliana. Para Angel Bojadsen, diretor editorial da Estação Liberdade, faz diferença, ainda, a colaboração das instâncias regionais de governo. "O que acontece lá, que não temos aqui e é muito importante, é o apoio dos níveis administrativos locais, como prefeituras. Há muitos casos de programas de residência para escritores, de adiantamento sobre vendas, entre outras ações."

Segundo Angel, a Estação Liberdade conta com a parceria do Bureau du Livre e do consulado da França no Brasil, que apoiam os projetos — este ano mais generosamente –, e não interferem nas decisões editoriais. "O engajamento do Estado na França é notório. Há uma sobreposição saudável entre o Ministério da Cultura e o das Relações Exteriores no apoio às editoras no exterior."

Além disso, ele elogia a política do preço único, que obriga livrarias francesas a cobrarem o mesmo preço pelo livro em todas as regiões do país. "Aqui, o consumidor de fora dos grandes centros paga muito mais. Não é justo nem democrático. O preço único seria uma forma de democratizar o acesso aos livros e de assegurar a bibliodiversidade", argumenta, lembrando que essa lei vigora na França desde os anos 80. Foi revogada por um período curto, de dois anos, quando fecharam no país 500 livrarias, o que provocou a volta da medida. "Hoje, mesmo as grandes redes de lá defendem o preço fixo, porque ele protege a margem de lucro e permite veicular obras mais difíceis, de ciclo de venda mais longo."

webmaster@criatudo.com.br

Deixe uma resposta