Sistema de ensino disfuncional e dificuldade com as mulheres desafiam jovem caipira em romance de Natsume Soseki de 1908

Sistema de ensino disfuncional e dificuldade com as mulheres desafiam jovem caipira em romance de Natsume Soseki de 1908

Sanshiro Ogawa [lê-se “Sanchirô”] sai do interior do Japão rumo à deslumbrante capital para estudar literatura, mas a transição à vida adulta não será como ele imagina. Aqui, na primeira parte da trilogia informal de Natsume Soseki composta ainda por E depois e O portal, o verdadeiro aprendizado do protagonista se dá mais na contemplação das formosas nuvens do céu azul de Tóquio do que nas supostamente edificantes aulas da universidade.

Neste romance de formação, ambientado na virada do século XIX para o XX, o ingênuo personagem-título atravessa as ruínas de um sistema de ensino caduco, formado por alunos que fingem que estudam e por falsos “mestres” cuja fachada intelectual não resiste a um olhar mais atento.

Assim, no ir e vir de nosso pacato calouro, desvendamos, por exemplo, o soberbo professor Hirota, que passa seu tempo expelindo “fumaça filosófica” pelo nariz, ou ainda o artista Haraguchi, retratista de pincelada e constituição robustas, partidário das modernas tendências europeias. Perto deles, no entanto, Sanshiro não passa de um xucro, sobretudo no plano pessoal, ao evidenciar seu embaraço e sua pouca habilidade com o sexo oposto a partir da afeição que passa a nutrir pela instigante Mineko.

A trama de Sanshiro foi serializada em setembro de 1908 no Asahi Shimbun, e Soseki considerou ainda para a obra os títulos “O jovem”, “Leste e oeste” e “Plana planície”, por receio de o jornal não julgar o nome do protagonista atraente o suficiente para o leitor – leitor esse que, seja no Japão da era Meiji ou no Ocidente pós-moderno, acompanha, deliciado, as atitudes e o comportamento peculiares de nosso jovem herói em busca de sua epifania. 

Conhecido pela grande habilidade na construção psicológica de seus personagens, Soseki também evidencia aqui tal característica. A despeito da distância secular de que data a origem da obra, Sanshiro não deixa de ser uma amostragem bem acabada da “modernidade” estilística do autor, tido como o pai da ficção japonesa contemporânea – Haruki Murakami, por exemplo, admite que Sanshiro lhe serviu de referência para elaborar seu Norwegian Wood, que também trata de um personagem recém-chegado à universidade. O humor sutil, com que Soseki já assombrara em seu primeiro romance, Eu sou um gato, reaparece em Sanshiro de forma ainda mais oportuna e elegante, nas situações em que o protagonista não consegue evitar o profundo desajeito para lidar com as coisas e pessoas do mundo cosmopolita – e do mundo dos adultos. Pois Sanshiro, o personagem, não é outra coisa que não um pós-adolescente deslocado da vida real, como a esperar que a universidade lhe ensine os atalhos para achar seu lugar no mundo. Vã expectativa. 

Sobre o autor
Natsume Soseki nasceu em Tóquio em 5 de janeiro de 1867. Teve infância difícil e solitária. Foi entregue pelos pais a outra família com apenas dois anos de idade, retornando a casa aos nove. Estuda literatura tradicional chinesa desde a infância. Ingressa, aos 23 anos, na Universidade Imperial (atual Universidade de Tóquio), para cursar literatura inglesa. Estreia com Eu sou um gato em 1905 (Estação Liberdade, 2008), obtendo notável recepção de crítica e público. Abandona o ensino dois anos depois, dedicando-se a partir de então unicamente à literatura, tornando-se escritor exclusivo do diário Asahi Shimbun. Em seu entorno, muitos autores de sua época bebem de sua influência: a casa de Soseki é um ponto de encontro da jovem intelectualidade japonesa, da qual se incluem nomes como Yaeko Nogami e Ryunosuke Akutagawa. Em 1910 Soseki é acometido por uma primeira crise de úlcera. Pouco depois, recusa a titulação de doutor. Falece em Tóquio em 9 de dezembro de 1916, de sequelas de suas úlceras. Outras de suas principais outras obras são E depois (1909 / 2011 no Brasil), também lançada pela Estação Liberdade, além de Botchan (1906) e Mon (1910) – esta última também sairá em breve pela casa. Soseki permanece até hoje como um dos escritores mais populares e lidos do Japão.

Sobre o tradutor
Fernando Garcia é bacharel em Tradução Japonês-Português pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foi pesquisador em Literatura Comparada pela Universidade de Hokkaido, Japão, entre 2009 e 2011. Além de Sanshiro, traduziu os romances O portal, também de Soseki e Vita sexualis, de Ogai Mori – ambos com previsão de lançamento pela Estação Liberdade em 2014. Fernando Garcia reside atualmente na cidade de Sapporo, no Japão.

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